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A história dos efeitos na SimulaçãoNa sequência do post sobre a complexidade do complexo e as razões que nos trouxeram a este mestrado avanço umas anotações filosóficas que estão na base do meu interesse por esta área.
Após as interrogações de Heidegger sobre o que é estar aqui (e, consequentemente, ser aqui: sein-da), sobre o peso que tem sobre a percepção individual o contexto em que ele é recebido (ou lançado: Geworfenheit), e sobre as pré-estruturas da compreensão (Vorstruktur des Verstehens), ou seja, os pré-conceitos, as caixas em que colocamos, à partida, aquilo do qual temos a percepção, após estas reflexões, surgiram vários trabalhos que a tentaram aplicar à realidade que nos rodeia e à essência do próprio ser que sofre esses efeitos (o ser-aí: Dasein). Os trabalhos de Gadamer vieram nesse sentido e incluem o conceito relacionado de história dos efeitos (Wirkungsgeschichte). A história dos efeitos vem influenciar a consciência (Bewusstsein), ou seja, a percepção, o que significa que tudo o que já aconteceu antes tem um peso sobre as percepções presentes que, por sua vez, vão modificar essa história. Isto é o que se chama de círculo hermenêutico e já estamos a chegar á questão que queria levantar. Uma nota importante é que, uma vez que se fala em história dos efeitos, é uma história comum a vários indivíduos, que eles manipulam com cada acto e que vai, assim, sendo formada colectivamente e colectivamente formando os indivíduos. Quando as percepções ou acções presentes se manifestam elas podem-se tornar em estrutura o que significa que podem passar a fazer parte da história dos efeitos de maneira que toda ela é revista à sua luz, num autêntico sistema de conceitos. Este fenómeno é um pouco o que acontece ao apaixonado que vê tudo diferente, à luz dos novos sentimento. Estes pontos parecem-me remeter para o que acontece quando, num sistema, o todo excede as partes, ou há emergência. Um acto individual é acrescentado a toda uma história dos efeitos do sistema. Torna-se parte da história dos efeitos, ou seja, da história do impacto que cada acto dentro do sistema teve nele. A certa altura, há um acto que tem um impacto sobre o sistema inteiro, ou seja, apesar de individualmente ele não ter grande dimensão, ele torna-se em estrutura, no sentido em que produz uma avalanche, por exemplo (no modelo de Bak-Sneppen). Isto é um verdadeiro efeito cumulativo dos impactos de cada acção. Estas questões são interessantes na medida em que nos permitem enquadrar melhor o que estamos a fazer quando modelamos um sistema. É fácil perder a noção do que está a ser representado. Se calhar fui demasiado vago. Para os especialistas na área da Filosofia, também posso ter explicado mal alguma coisa. Corrijam-me, comentem, especulem... |
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Re: A história dos efeitos na SimulaçãoCaro André,
Essas considerações fenomenológicas podem fazer sentido mas para uma abordagem analítica da complexidade em pouco contribuiem. Um sujeito pode praticar uma acção que não altera a estrutura do sistema social em que está inserido, pode alterar a percepção que tem dessa estrutura, mas é a sua percepção que é alterada e não a estrutura do sistema que muda. Para alterar a estrutura do sistema, tem de passar a ser 'um outro' e argumentar que o ser é um outro quando as suas percepções são outras é argumentar que o ser é o que são as suas percepções, e ambos sabemos que não é bem assim. |
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Re: A história dos efeitos na SimulaçãoOk, André, obrigado mesmo: encontrar aqui mais alguém que já leu o Rei de Friburgo é suficiente para me convencer de que se calhar isto vale a pena. Sinceramente, obrigado.
Não tenho muito tempo agora para responder, mas o problema é que eu diria que Heidegger pode ser visto como um todo uno, mas também pode ser visto como duas "fases"; e não é para mim no Sein und Zeit que iria à procura da perspectiva sobre a Complexidade; mas nos estudos sobre o Logos, que superam o existencialismo. Para mim, está tudo aí. E Leibniz, o que ele diz de Leibniz é muito importante. Porque a verdade é que a reply do António diz muito; (para mim, mais no que ele não diz do que no que ele diz): é preciso modificar a própria linguagem com que falamos destas coisas. Senão, é impossível. Num frame of mind como aquele do qual o António responde, Heidegger não faz sentido nenhum. E o António está correctíssimo. cheers, mate P |
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Re: A história dos efeitos na SimulaçãoObrigado pelos vossos comentários!
Queria dizer ao António que concordo com o Paulo quando fala na necessidade de reinventar a linguagem para falar a este nível. Elaborando apenas mais um pouco, com o post anterior estava a tentar chegar à conclusão de que apesar de existirem padrões fixos nas nossas simulações, o que é visível, muito interessante e pode ser analisado, também existem pontos de saturação em que uma pequena acção reconfigura todo o sistema, embora de forma fugaz e que, num fluxo alucinante de ciclos de tempo, nos passa despercebida. A reflexão que fiz pretendia apontar neste sentido, mais do que suportar este argumento. E isto é importante analiticamente, e aqui a culpa creio ser minha por não me explicar devidamente, porquanto sugere que devíamos prestar atenção a estes pontos de saturação que, apesar de não serem regulares ou fazerem parte de um padrão, poderão ser estudados a um nível superior enquanto indicativos do efeito cumulativo das acções individuais para todo o sistema. Claro que me podem dizer, e se calhar com toda a razão, que isto é óbvio e, ainda por cima, extremamente difícil de analisar... Por isso lhe chamei de reflexão. Finalmente, e mais especificamente para ti, Paulo, gostaria imenso que elaborasses um pouco aquilo que sugeriste. Confesso que, a um nível pessoal, prefiro a fase posterior dos trabalhos de Heidegger, mas apesar da ênfase na tecnologia enquanto motor de libertação do Ser para a reflexão, estou mais habituado a vê-la como uma fase mais interior, com algumas notas de espiritual (que muito aprecio). Quando puderes, desenvolve um pouco mais esse tema. E Leibniz? Falas da crítica à doutrina do julgamento? Em que medida a vês aqui? Um abraço, André
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Re: A história dos efeitos na SimulaçãoOlá! Escrevi uma resposta a dois posts, o do António e do Paulo que se encontra aqui.
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